O sonho não acabou

Bom dia. Quer dizer... ainda não dormi tudo. Abri os olhos antes do sono acabar. Pelo silêncio, fora os micro-organismos, talvez seja o único ser, de certa forma, acordado. Entre nós, humanos, a esta hora, nem os padeiros. Nada de pássaros, latidos, ronco de motores. O canto do galo há muito já não se ouve. Mesmo aqui, próximo ao Corte. Vez em quando acordam-me helicópteros. Mas hoje, nem isto. O que há são pensamentos. Muitos. E passam desordenados. Vem, vão, voltam, acumulam-se como os carros mais tarde na Nossa Senhora de Copacabana. Tento me entregar ao torpor, retomar o sonho do ponto em que estava quando meio que acordei. Mas sumiu como fumaça. Nem me lembro. Melhor assim. Vai ver, foi o que me despertou. Fecho os olhos. Talvez volte a dormir e acorde com buzinas, telefone, helicópteros, pesadelo.

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)


Direitos Reservados © 2016 Cristiano Ottoni de Menezes

Nua

Agitam-se os mares
as marés
os amares

Cantam poetas
uivam os lobos
buscam-se os amantes
quando a lua brilha
como se nunca antes...

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)
Danae, Gustav Klimt 


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Noções unidas

Antes de sermos de cá, 
ou de lá
de não sei onde
de perto ou de longe
de um jeito
ou de outro
somos o que há 
vida que pulsa

Em cada lugar
tanto o que encontrar
falares
cantares
comeres
tanto o que vestir
insistir
descobrir
desvendar
para ver 
como somos
e somamos
os humanos

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)


Direitos Reservados © 2016 Cristiano Ottoni de Menezes

Mind the gap

No metrô, sentado à frente da amiga, mas virado para ela, ele falava e falava. Quando não, os olhos inquietos indicavam a busca do que dizer, de modo a manter vivo o contato. Nos poucos segundos de silêncio, ela, sempre em estado de conversa, o socorria com um comentário qualquer, o que já lhe bastava para retomar o fluxo verbal.
Em outros momentos o jovem conjugava uma rápida sapateada com um riff de batucada no encosto do assento de acrílico, como se fosse uma virada de bateria, um efeito de passagem para um novo assunto.
Até que ela desceu e logo alguém sentou-se onde estava. Ele manteve-se na mesma posição, quieto, pensativo, com a mão no queixo, como se percebesse o eco de sua voz, a inércia do ritmo intenso da conversa interrompida.
Desceu algumas estações depois.

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)


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Mergulho

O desafio da folha em branco ainda é maior do que a capacidade de preenche-la com o que vasculho em minhas entranhas. Os versos, palavras que encontro são ainda o que surge fácil, como algas, ou a óbvia fauna que se vê em qualquer mergulho raso.
É preciso ir mais. Há um vulcão encoberto, camuflado por camadas de sedimentos acumulados.
Penso em desistir, mas a vertigem já não deixa. E o fundo, à primeira vista compacto, e estável, vai se revelando poroso, receptivo às minhas investidas.
A água, então límpida, se faz turva, salpicada pela areia que minha agitação espalha. A sensação é de que cavo um abismo, de onde posso nunca mais sair, mas à medida em que nele penetro, torna-se mais e mais atraente, irresistível, inevitável.
E prossigo...

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)


Direitos Reservados © 2016 Cristiano Ottoni de Menezes

Jazz

Agora solo
deixo o conforto do tema
Assumo o risco
do improviso
Atento e solto
perco o juízo
Mas a cada nota
sei o caminho de volta

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)


Cristiano Ottoni de Menezes

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Jardim

Os poemas
colho-os
no silêncio
em que nascem

Os poemas
quero sê-los
tê-los
na ponta da língua
dizê-los de um jeito
que sejam bem vindos
os poemas

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)


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Deságue

E então
o que são cem anos
agora que já me estendo
a ponto de vislumbrar a foz
o oceano

A vida
até aqui
tem sido este rio
e tudo o que foi tecido
desde cedo
na correnteza
em que escorrego
depois de tantas
curvas
quedas
sustos
surpresas
represas

Agora é o prazer
do suave deslizar
como que numa seda
e tudo o mais
se me conceda
até o encontro
mais cedo
mais tarde
com algas
e o sal nas águas
a emoção do feito
de deixar o leito
margens próximas
e viver então
o fim deste curso
a fusão com o imenso
que
percebo
já se oferece
acena como lenços
nas velas
de jangadas
entre ondas
que se entornam
renovam
a dança
do perene movimento

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)




Direitos Reservados © 2016 Cristiano Ottoni de Menezes

Primavera, Rio

Olho pela janela
um resto de dia
se despede
acena cores
frescor

Espalha-se
na abóboda
a base da abóbora
logo rósea
maquiagem
sobre o azul
que persiste

Tons suaves
sol que esmaece
aos poucos
anoitece

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)





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Lenha no fogão

Fervem-me
os neurônios
no diálogo
entre anjos
e demônios

Com versos 
faz-se
a conversa
nasce o poema
que então se serve
pois já não ferve.

- Cristiano Ottoni de Menezes (inédito/2015)



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